Enquanto boa parte do debate ambiental ainda coloca a pecuária como vilã das mudanças climáticas, uma pesquisa realizada em Mato Grosso mostra justamente o contrário: pastagens bem manejadas podem capturar carbono da atmosfera, recuperar o solo e ainda aumentar a produção de carne sem necessidade de abrir novas áreas.
Os resultados fazem parte do Projeto Pasto Forte, desenvolvido pela Fundação MT em parceria com a Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat) e o Instituto Mato-grossense da Carne (Imac). Desde 2021, pesquisadores acompanham propriedades rurais nos biomas Cerrado, Pantanal e Amazônia para medir os impactos da recuperação de pastagens degradadas por meio de adubação e manejo adequado.
Na prática, o estudo tenta responder uma pergunta simples, mas estratégica para o futuro da produção de alimentos: é possível produzir mais carne preservando o meio ambiente?
E os números mostram que sim. Ao longo de quatro anos de acompanhamento, as áreas manejadas apresentaram aumento significativo no estoque de carbono no solo, um dos principais indicadores ambientais ligados ao combate às mudanças climáticas. Em algumas propriedades, o ganho ultrapassou 46 toneladas de carbono por hectare.
Mas os impactos não ficaram apenas “embaixo da terra”. Com o pasto mais saudável, houve aumento da capacidade de suporte das áreas, permitindo colocar mais animais por hectare sem degradar o solo. Isso significa maior produtividade, melhor aproveitamento da área e redução da pressão pela abertura de novas fronteiras agrícolas.
“O produtor sempre ouviu que precisava escolher entre produzir ou preservar. O que os resultados mostram é justamente o contrário: quando o manejo é bem feito, uma coisa ajuda a outra”, avalia o Gerente de Relações Institucionais da Acrimat, Nilton Mesquita Jr.
O projeto foi conduzido em fazendas localizadas em Rondonópolis, Cáceres e Santiago do Norte, totalizando mais de 650 hectares monitorados e cerca de 4,2 mil animais acompanhados entre cria, recria e engorda.
Cada propriedade recebeu diferentes níveis de investimento em adubação e recuperação de solo, desde áreas sem aplicação até sistemas com manejo mais intensivo. Os pesquisadores analisaram indicadores como produção de forragem, taxa de lotação animal, desempenho produtivo e capacidade de captura de carbono.
No Cerrado mato-grossense, os resultados chamaram atenção pelo potencial produtivo. As áreas com maior nível de investimento registraram aumento expressivo no estoque de carbono e chegaram a taxas de lotação superiores a 3 UA/ha, índice considerado elevado para sistemas a pasto.
Segundo os pesquisadores, o segredo está no solo. Quando o pasto recebe manejo adequado, as raízes das plantas se desenvolvem mais, há maior produção de matéria orgânica e o carbono passa a ser armazenado no solo. Além disso, o controle correto da lotação animal evita o superpastejo, um dos principais fatores de degradação das áreas pecuárias no Brasil.
Outro ponto que chamou atenção foi o retorno econômico obtido pelos produtores. Em alguns modelos avaliados, o retorno sobre o investimento chegou próximo de R$ 2 para cada R$ 1 aplicado na recuperação das áreas.
Para a Acrimat, o Pasto Forte ajuda a desmontar a ideia de que sustentabilidade é incompatível com rentabilidade no campo.
“Mato Grosso possui um dos maiores rebanhos bovinos do mundo e tem potencial para liderar uma nova fase da pecuária brasileira, baseada em tecnologia, recuperação de áreas e produção de baixo carbono. O produtor rural quer produzir melhor e o projeto só valida o processo que as fazendas de Mato Grosso já faziam a mais de duas décadas, com a redução de 34% na pastagem, no mesmo período em que a produção de carne bovina saltou 116%”, destaca o presidente da Acrimat, Nando Conte.
Além dos ganhos produtivos e ambientais, o estudo também fortalece o posicionamento da pecuária brasileira diante das exigências internacionais por cadeias produtivas mais sustentáveis e rastreáveis.
A expectativa é que os dados obtidos sirvam de referência para novas políticas públicas, programas de incentivo à recuperação de pastagens e ampliação das práticas de pecuária de baixo carbono em Mato Grosso e em outras regiões do país.
